Como escrever um guião com recursos estilísticos que permita realçá-lo enquanto bom comunicador – Parte II

Num artigo anterior, falamos sobre como o uso de recursos estilísticos no nosso guião pode ser importante, para a criação de dinamismo e fluidez de apresentação. São dezenas os recursos que temos ao nosso dispor e é extremamente inteligente pensar em como os podemos introduzir no nosso discurso de modo a enriquecê-lo.

O processo de criação de um guião deve ser minucioso, pensado e acima de tudo revisto, até nos parecer totalmente coerente e bem organizado.

Apesar de, de forma corriqueira usarmos várias vezes alguns deles, em situações de public speaking todo o seu uso deve ser pensado e repensado da melhor maneira, de modo ao conjunto total ser coerente e fazer sentido, não fazendo parecer que só pusemos lá recursos à sorte. Ao fazermos uso deles criaremos uma ligação mais forte com a nossa audiência, pois muitas vezes conseguimos fazê-los pensar e até eventualmente intervir.

Com um pouco de criatividade conseguimos criar algumas frases ou trechos que transmitirão a nossa ideia de forma mais poética, original e eficaz. De forma simples, com o seu uso iremos valorizar muito mais o texto do guião que estamos a preparar. Devemos garantir que:

  • O seu uso é feito de forma consciente e equilibrada;
  • Que não transmitimos ideias erradas ou diferentes daquilo que pretendemos;
  • Respeitamos o ‘’menos é mais’’, não caindo em exageros;
  • Fazemos o seu uso de forma sublime.

Vejamos então mais alguns recursos estilísticos que pode utilizar, para além do referidos no primeiro artigo sobre como usar recursos estilísticos.

Planearmos a nossa apresentação pública é um enorme processo criativo, pois para além de termos de garantir que transmitimos toda a informação pretendida, temos ainda de ter a preocupação de que tudo flua de forma natural e dinâmica. Neste sentido o uso dos recursos estilísticos dá-nos uma grande ajuda, pois permite-nos ter um discurso mais articulado, original e flexível.

Anadiplose  

Usar a última palavra da frase anterior no início da seguinte.

‘’O professor disse que a tese estava muito complexa. Complexa porque tinha muitas palavras de interpretação difícil. Difícil porque não são muito usuais no dia-a-dia.’’

 

‘’Eu achei aquela situação surpreendente. Surpreendente porque ninguém estava à espera que acontecesse agora. Agora porque estamos em confinamento.’’

Na anadiplose podemos de certa forma completar a ideia prévia, ou justificar a frase anterior com a informação que vamos acrescentar na próxima frase. Pegando sempre na sua última palavra para iniciar a ideia seguinte.

 

Anáfora

Repetição de palavras com o intuito de reforçar a ideia e dar ênfase ao que estamos a dizer.

‘’Comunicamos aqui, comunicamos em casa, comunicamos no trabalho..’’

Se eu disser apenas ‘’Comunicamos aqui’’, estou a dizer apenas ‘’Comunicamos aqui’’. Se eu disser a frase supra referida, estou a reforçar a ideia que não só temos de comunicar aqui, como em casa, no trabalho, etc. Com isto, estou a dar ainda mais destaque ao quão importante é sabermos como comunicar com os outros, pois isso acontece diariamente e em todas as áreas da nossa vida.

‘’O aluno disse que não fez o trabalho porque não tinha imaginação, disse que não sabia escrever, disse que não conseguia, disse que não tinha tempo..’’

Imaginem a seguinte situação:

Estou a reportar a outro professor, que considero que aquele aluno não merece uma boa nota pois não é esforçado e dá sempre desculpas para não apresentar projetos.

Se eu disser: ‘’O aluno disse que não fez o trabalho porque não tinha imaginação’’, isso por si só não demonstra que ele é totalmente desmotivado e despreocupado com os seus trabalhos. No entanto, se eu transmitir totalmente a ideia que ele me passou, vou ter vários tópicos para reforçar o meu argumento inicial de que o aluno não é preocupado com os seus projetos. Para além de ele dizer que não tinha imaginação, ainda acrescentou várias outras justificações, para se desculpar do facto de não ter entregue o trabalho.

Antífrase

Utilizarmos com ironia uma palavra que expressa exatamente o oposto daquilo que queremos dizer.

‘’Cheguei à apresentação e o meu powerpoint não abria. Que bela situação!’’

Aqui bela situação não significa bela , significa que foi um momento complicado.

‘’Apaguei sem querer um artigo importante do meu computador, olha que maravilha!’’

Não é maravilha nenhuma, perdi muitas horas de trabalho.

‘’Belo serviço, ficamos sem luz!’’

Ficar sem luz não é nada agradável, logo não é um belo serviço de forma nenhuma.

Eufemismo

Quando usamos uma palavra no lugar da outra, para amenizar e tornar a informação mais leve e menos grotesca.

  • ‘’Ele não disse a verdade’’ – Ou seja, ele mentiu.
  • ‘’Foi convidado a sair da sala’’ – Foi expulso.
  • ‘’Não era um professor muito empático’’ – Era alguém antipático.
  • ‘’Iremos fazer uma atualização de tarifas’’ – Vamos aumentar os preços.
  • ‘’Aquele curso não era nada acessível’’ – Era caro.

Ao usarmos este recurso, de forma mais suave vamos transmitir a ideia que pretendemos, que à partida reflete uma informação mais pesada ou não desejada. Chamar alguém de mentiroso, dizer que foi expulso ou informar que vamos aumentar preços de serviços, são informações menos ‘’simpáticas’’, ou seja o uso do eufemismo ajuda a que de forma clara mas leve digamos o que realmente queremos dizer, sem parecermos rudes ou agressivos.

O uso dos recurso estilísticos permite-nos dar asas à nossa criatividade e criarmos um guião mais dinâmico e original.

Para além dos recursos já referidos, existem outros métodos de criar dinamismo no nosso guião sem ser de forma tão complexa ou pensada, como por exemplo recorrermos ao uso de comparações ou interjeições. As comparações, como o próprio nome diz, permitem-nos comparar, ou seja, precisamos de no mínimo duas coisas ou pessoas para o fazer. As interjeições por sua vez podem ser muito variadas, desde interjeição de admiração, até dúvida ou espanto.

‘’ Ambos os jornalistas falaram sobre esse tema, no entanto um aprofundou mais a parte teórica do que o outro. Essa informação mais ampla, foi bastante importante no auxílio da minha pesquisa, Oh se foi! ‘’

‘’Falar em público dá tanto medo como fazer um exame de condução. Ui, ambos nos deixam muitos ansiosos!’’

‘’No outro dia um elemento do público perguntou-me se era mais importante a linguagem verbal ou não verbal. Oh que bela questão!’’

‘’Medo de falar em público? Chega!’’

Faça o uso destes recursos no planeamento do seu guião para apresentação pública e garanta que, de forma equilibrada e dinâmica, a sua mensagem é passada para a audiência. Lembre-se sempre que todos nós somos únicos, e esse é o nosso verdadeiro poder. Use esse poder a seu favor e crie um guião totalmente personalizado a si e àquilo que quer representar. Quando em dificuldade, lembre-se que a DMT está aqui para o ajudar a obter sucesso na criação do seu guião e a ser confiante quando comunica para  a sua audiência!

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